Domingo, 6 de Maio de 2012

Voando sobre a realidade





















Atravessando a noite, percorre-se Espanha, antes de alcançar Andorra.
A profunda crise, (que agora todos anunciam) percebe-se pelo reduzido trafego nas estradas, aplicado o “remédio” da austeridade, por prescrição dos dirigentes.
 À semelhança do sucedido com os doentes na idade média, uma forte sangria é a solução encontrada.
Desde, como é claro, não atinja em nada os nababos políticos, e demais oligarquia que submetem o povo a tal tratamento.
Até têm coragem de afirmar, escondidos atrás de frases elaboradas, que a cabecinha do povinho é que foi tonta, que não devia ter deixado seduzir-se por mais e mais bens materiais, numa espiral sempre crescente, graças ao cultivo de uma ausência de valores, muito conveniente, para quem quer mandar.
 É neste triste cenário que se depara assim Espanha; Andorra, tal peça de dominó, vê o seu comércio ir a pique, segundo o que alguns locais me confidenciam.
Choque total, ao descobrir que um amigo nosso, numa “pacífica” missão de transporte, quase perdeu a vida.
O seu empregador, apesar dos inúmeros avisos que recebeu, deixou a sua gigantesca aeronave de transporte, continuar em serviço, com graves falhas de segurança.

Num insuspeitado dia, percorre 30 metros desde a estrada, quase a pique, até ao fundo de uma ravina.

A sua aeronave ficou totalmente destroçada, irreconhecível; No seu corpo longas cicatrizes e o relato do sofrimento a que esteve submetido.
E o futuro? Como vai ser agora? Ainda não sabe nada, apenas a certeza que o criminoso patrão vai escapar incólume.
Passa-se pelo supermercado, arranca-se para França com o mediterrâneo colado ao ombro.
Sucedem-se belas cidades, e vilas piscatórias. Delicadas, umas mais turísticas que outras.
Como que saída do início do seculo XIX, uma loja de doces caseiros, verdadeira jóia artesanal de sabores com um paladar belo, com que brindava também a vista.
Na mesma rota, vêm Cannes, que surpreende pelo seu carácter descontraído.
A “guerra” da crise parece ainda não ter chegado a estas paragens…comenta o co-piloto.

A tripulação encanta-se com a sua praia; A sua marginal exibe no lado oposto uma assinalável quantidade de lojas de grande apuro.
Facilmente perceptível, através das peças expostas, o arrojo do design, e bem conseguidas combinações de cores, provam que o “criar” é um exercício mais interessante que o “copiar”.
Mais trabalhoso, desafiante e arriscado, totalmente contrário à corrente dos tempos actuais.
Simpática, Cannes têm um pequeno “hall of fame” onde alguns artistas do cinema, de nomes sonantes deixaram as impressões das palmas das suas mãos.

Curiosa é a meteorologia igualmente… final de Março e com temperaturas quase de Junho…enquanto aguardamos em diligente fila para entrar no ultra exclusivo Mónaco, tal aristocrata distante e altivo, pouco interessante de conhecer.
A sua arquitectura caracteriza-se pela optimização do espaço disponível, e como é muito escasso, crescem prédios desmesuradamente em altura.

No meio do trânsito é difícil localizar os “lugares comuns” que todos nós conhecemos das corridas de fórmula 1; Quando nos deparamos com um desses locais, parece que a sua escala é bem menor do que nos habituamos a ver na televisão.

Sucede-se a Itália. Ventimiglia é uma cidade simpática, até Roma são cerca de 600Km de uma estada em que se sucedem um misto de localidades em tamanho e numero sempre à beira mar.

Imaginem uma estada marginal, como temos por cá. De Lisboa a Cascais ou de Lagos a Faro.

Mas com o mar devidamente cuidado. Espanta-me a ausência de poluição, descubro umas enormes ETAR’s discretas na sua localização, que assim mantêm esta costa do Mediterrâneo muito bela e atractiva.

De modo a escapar às “pesadas” portagens italianas, deparamos com o centro de Génova, tentando descortinar umas pequenas placas com a indicação da localidade seguinte.

A noite já se prepara entretanto para se deitar; De modo a não descurar a segurança o co-piloto fica de vigia durante um par de horas enquanto a mesa dos mapas do navegador me serve de cama.
Brilha o sol intenso. Retemperado, agarro nos comandos direito a Roma.
Algumas horas e chegamos aos seus arredores, têm encanto, não sei dizer.
Das suas mil faces, da mais sedutora à mais casta, todas são verdadeiramente fascinantes.
Com a sua história alguns lugares parecem falar connosco, envolvem e transportam para outros tempos.
Como o Coliseu.

Em pleno séc. XXI, a sua arena abarca a dimensão de nações, lançadas igualmente a um renovado tipo de feras, onde a ganância e a exploração são o espectáculo garantido para os mandantes, que das bancadas, sem piedade e desprovidos de qualquer senso, ordenam o triste espectáculo, agora numa dimensão global.

Relembrem Pedro. Que se ergueu das bancadas do Coliseu e enfrentou Nero; Tentando despertar em a consciência adormecida dos cidadãos de Roma.

Grandiosa atitude, muito maior que todos os monumentos que por lá perduram.
Tenta-se uma rota ainda mais para sul, mas os preços dos combustíveis são verdadeiro fogo; Interrogo-me se esta economia não terá em breve à sua espera um incêndio de dimensões proporcionais ao que Roma conheceu no passado.
Partimos para Norte, em direcção a Áustria, com os protestos do co-piloto por escolher a estrada nacional, temendo um percurso difícil.

Mas tratou-se de uma agradável surpresa, onde inclusive, um Ferrari enche os pulmões pela estrada serpenteada, num misto de potência e graciosidade.
Já na Alemanha, nos arredores de Munique, sem mapas e pelo meio de numerosas obras na via, vou directo a Landsberg, sem hesitações em nenhum desvio ou placa. Milimetricamente.
Como se de se tratasse de um caminho que fizesse todos os dias.
Um forte ruído agudo, ao longe, anuncia um destes novos aviões inimigos que não têm hélices.

Os artilheiros inquietam-se, sabendo da manifesta incapacidade de apanhar em mira tais aeronaves.

Mas o ruído desaparece, levando com ele o momento de tensão.

- Ainda conheces bem estas zonas…afirma o co-piloto, sabendo que eu tinha vivido por ali há cerca de 20 anos.

Por curtos instantes, passam na minha memória esses tempos.

Da alegria de um emprego modesto e muito trabalhoso, com uns colegas de trabalho verdadeiramente impecáveis, muitos deles refugiados da Bósnia Herzegovina, onde se viram de um dia para o outro, vítimas de um genocídio sem explicação, como que me relataram na primeira pessoa.
E também de uma batalha que perdi, quando tentei libertar a mulher dos cabelos cor de fogo, de um terrível vicio que a consumia.

Recordo especialmente o seu carácter. Quando todos terminavam o dia de trabalho, rapidamente partiam para o descanso. Ela não.

Vinha sempre dar uma ajuda, aqueles que ainda afogados em trabalho, procuravam chegar ao descanso.

Espero que esteja bem. Que tenha um marido e filhos que a amem verdadeiramente, e que o vício não a tenha feito perder-se.

Aproxima-se o objectivo. As famosas rampas lançadoras das bombas V-2.

Na alegoria dos tempos actuais, toma o seu lugar a localidade de Schwäbisch Hall.

Sim essa mesma, anunciada a todos nós, via e-mail ou via jornal, como a “rica” localidade alemã que ansiava por Portugueses, com milhares de postos de trabalhos disponíveis.
Nada mais falso. Num fundo de um vale quase sem luz lá encontramos o objectivo.
Têm um gigantesco hospital, em linhas dos anos 50. Para onde acorrem ambulâncias transportando pessoas de elevada idade.

Também têm uma pequena fábrica de cerveja. E um supermercado. E nada mais de relevante.

Os seus cidadãos querem tanto aprender Português (como se afirma no suposto e-mail que circula por Portugal) como nós queremos aprender mandarim.

A ausência de grandes infra-estruturas produtivas rapidamente dá a percepção que poucos ou nenhuns trabalhos se encontram por lá disponíveis.


Teria sido mais produtivo, para aqueles que assim lançam as pessoas à conquista de algo falso, que os empregos e todo um futuro, estivessem à espera na Nazaré, a um metro à frente de onde o cavalo de D. Fuas Roupinho se deteve antes de se precipitar no abismo. 


Mas a Nazaré é perto. E Schwäbisch Hall é longe, e nessa distância cabem todas as mentiras.

O co-piloto detesta o local, e dá mostras de se sentir mal sobre o objectivo. O mesmo acontece com um dos artilheiros.

Também não morro de amores pelo local. Até a luz dos candeeiros parece que é sugada por algo.
-Ok !! Já basta !! Manetes de potência no máximo e vamos daqui para fora!!
Todos respiram de alívio depois de abandonar aquelas paragens.
Sinceramente tenho pena que 10 milhões de Portugueses não possam vir até Schwäbisch Hall, para verem a mentira que é.
Necessitamos sim (e esses não ouvimos falar) é de projectos virados para o nosso maior recurso, o Mar.

Não de efectuar uma exploração desmedida dos seus recursos, mas sim de lançarmos em projectos de aquacultura em grande escala devidamente sustentados.
Se forem ao supermercado e comprarem peixe, verão que uma grande percentagem já é de aquacultura, mas têm origem em Espanha e até na Grécia.

Ora isto é totalmente incompreensível para um país que têm uma Zona Económica Exclusiva de Oceano de 3 027 408 km² (14,9 vezes a área de Portugal) uma área comparável ao território da Índia - o sétimo maior país do mundo)

Mais fácil é sufocar as pessoas com impostos ou com projectos tipo TGV’s ou similares.
Imaginem o nosso país a abastecer os principais mercados do mundo de peixe, graças a sua aquacultura.
O verdadeiro Luxemburgo da Europa. E não o pequeno pedinte de esmola. Mas isso não interessa aos políticos, pois dá trabalho de pensar e executar.

Uma grande interrogação vem à mente exactamente no Luxemburgo.
O pequeno estado milionário, onde os combustíveis são bem mais baratos que em Portugal não parece ter industrias ou sequer espaço disponível para uma agricultura que justifique tal riqueza.
Humm…mas não tem políticos que jogam interesses pessoais e de corporações acima do bem comum para todos.
Paris já de regresso; Em jeito de “tour” pela cidade, o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel posam em estilo.
O artilheiro de cauda, que no início da viagem desparecia enquanto em voo, pelos recantos da fuselagem, ocupa o ligar do artilheiro de estibordo, enquanto perscruta com o seu olhar curioso toda a gigantesca cidade. 
A rara beleza de ar pensativo junta-se à arte na sua forma pura, presente nos numerosos pintores na margem do Sena.
Respiramos de alívio em uníssono, quando uma viatura, surpreendida pelo trânsito lento, quase nos acerta em cheio na cauda, com as consequências que poderão imaginar.
E….5 Horas depois lá nos conseguimos libertar do seu terrível transito, onde algumas pequenas viaturas, já na berma, protestam com os seus capots abetos e radiadores fumegantes, para desconsolo dos seus donos.

A etapa de regresso agora é longa.

Pelas estradas nacionais já em plena noite, o co-piloto solicita ordem para fechar os olhos por alguns momentos.
Não tardou 5 minutos. Um forte ruído a bombordo indica um impacto com algo; O co-piloto acorda de imediato.

- O que foi isto??

- Não sei respondo-lhe….Para já estamos inteiros.

Com a sensação de ter bebido um café duplo, volto para trás tentando perceber a origem do impacto.
Mas absolutamente nada encontro no local.
Desperto, o co-piloto perdeu o seu sono.
É usual as bermas das estradas nacionais terem por aqui um declive superior a 2 metros de altura…penso silenciosamente…ora um impacto contra qualquer coisa que se atravesse de forma inesperada, lá se perde a direcção e lá se vai directo à valeta…
Sendo que esta estrutura, em relação a uma viatura normal está muito transformada e aligeirada, sendo na sua maioria fibra de vidro…o resultado é fácil de descobrir.

Além de mim…ainda tenho esta tropa toda à minha responsabilidade…lembrando os familiares da tripulação que conheci na base.
-Dê uma olhadela pelo rapaz…Sr. Capitão…são as palavras que recordo dos diversos familares, que se cruzaram comigo à altura.

Na esquadra dos caças de combate (que todos afirmam ser muito mais perigoso, no total desconhecimento desta actual missão) somos apenas nós e a nossa aeronave.

Aqui, para todos os efeitos, se a coisa corre mal…é vezes 6, não esquecendo a fortaleza voadora…

Agora compreendo o co-piloto. Porque não procura evoluir.

Passei-lhe os comandos em pleno centro de Roma, teve de ser.

Gritava e protestava por todos os poros; transmitiu tudo isso à aeronave e rapidamente se ouviu buzinas à sua volta em tom de descontentamento.

Assim a responsabilidade nunca será dele. Fica sempre comigo.
E quando a guerra acabar, com uma caderneta cheia de horas de voo, têm um lugar à espera numa qualquer linha aérea, como piloto comandante, alvo das atenções de todas as hospedeiras.

Já em Portugal por uma rota nunca antes utlizada (lembrava-me dela há muitos anos e não era pêra doce) acedi aos insistentes pedidos do co-piloto de voarmos por essas paragens.

5 estrelas, devo dizer. Auto estradas assim boas só mesmo no Luxemburgo. (esqueçam as alemãs, que vivem de muita fantasia, pois há zonas que nem rede de separação têm, entre a via e os terrenos agrícolas que as ladeiam)


Sei que não acreditam, mas é verdade.
Estas vias, por cá  têm uns pórticos metálicos, que piscam uma luz roxa, tipo discoteca, e o co-piloto diz que depois vão ao bolso do comandante, tipo Portagem.

A menos de 100km de casa …está difícil de abastecer…as bombas de combustíveis todas fechadas e as de pagamento automático fora de serviço…

- Depois de uma viagem destas fica sem combustível quase em casa...xiii... a esquadra inteira ia rir-se as gargalhadas de nós...comento.

- Vai a esquadra da polícia civil e pede indicações – solicito ao co-piloto.

De uma grande simpatia, a força policial de Torres Novas acompanhou-nos até a bomba, assegurando-se que conseguíamos abastecer.

O meu sincero reconhecimento.

Aterramos na base já pela madrugada, passado um dia já os artilheiros estão de volta à formação.
Convicto que o nosso país pode fazer a diferença pela criatividade na utilização dos seus (ao contrario do que se julga) vastos recursos, depois de liberto de interesses mesquinhos, redes de poder e influencia que sufocam uma nação inteira.
Junta a tua voz a dos outros que como tu vêem o que está mal, assim em conjunto farão a diferença, atacando o silêncio, conveniente, para quem só procura a riqueza e o engrandecimento pessoal à custa de todos nós.

Quanto mais tarde isso acontecer, mais perto o abismo da escravidão estará a nossa espera. 

Sábado, 24 de Março de 2012

Vergeltungswaffe V2

File:Peenemunde-165515.jpg



- Todo o pessoal ao briefing room!!  Ouve-se de um altifalante, em som estridente sem aviso.

Sobressaltados, eu e o  co-piloto lá chegamos à sala, já apinhada de curiosidade dos que já se encontravam ali presentes.

- Meus senhores… (inicia o comandante) as equipas de reconhecimento conseguiram finalmente localizar as rampas de lançamento dos infames foguetões que todos nós conhecemos os terríveis efeitos, as V2.

Deixo de ouvir o comandante.

Na minha cabeça revejo apenas o que ainda há pouco tempo presenciei num hospital civil, as inúmeras vítimas inocentes de uma arma de terror indiscriminada.

Esta sim. É a missão.

Saio da memória, só a tempo de ouvir o ultimo parágrafo do Sr. Comandante:

- ….E deverão ainda esperar forte resistência inimiga…tanto com fogo antiaéreo, não sendo de excluir caças inimigos em elevado numero, devido a importância das instalações designadas como alvo.

Já na messe, o copiloto comenta comigo:

-Tás pensativo…há problema?

- Já viste a fuga de óleo que temos num dos veios do hélice? Pergunto-lhe; Até o chefe da manutenção do hangar disse que não arriscava a voar assim.

- Ficamos. Afirma desalentadamente.

- Não; não nesta missão, quantos mais formos às V2, melhor. Ao menos que os civis fiquem libertos desta praga.

- O que mais te pode acontecer, digo-lhe em tom de brincadeira, é caíres nos braços de um enfermeira do imimigo…toda jeitosa e amiga….

- Quero lá saber disso!!  Diz em tom arreliado, numa clara alusão ao desprendimento que (quase) a relação a tudo e a todos o caracteriza.

Não podemos esquecer que já perdeu nesta guerra demasiados familiares muito próximos, de uma forma totalmente inesperada.

A guerra endureceu-lhe a alma ao longo dos anos.
.
Depois de algumas reparações (devidas ao co-piloto do Sr. comandante), que mesmo assim procura embirrar com tudo e com todos, já se encontra a B-17 no seu hangar.

Na messe os artilheiros estão pensativos, num meio-silencio pouco habitual, antes da missão.

Decerto acorre-lhes à memória, um momento, em que uma estranha aeronave sem hélices, com um som muito agudo passou a uma velocidade tal que mal a conseguimos ver.

Numa passagem “á pele” a dita aeronave abanou a B-17 como se fosse de papel, tal a massa de ar que deslocava. 

E decerto que pelo menos algumas destas aeronaves estarão à nossa espera sobre este objectivo.

Valha o nosso esforço para que possamos fazer a diferença.

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Uma Batalha Civil














Mergulhado na rotina de uma qualquer manhã, entre os gestos habituais de quem começa o dia, eis que o algodão de um cotonete desparece no interior de um ouvido.


Característica do início de dia, a dimensão temporal, que parece correr de uma forma bem mais acelerada.


“Se o dia fosse só feito de manhãs – Já estaríamos no séc. XXX…”


Bem, o algodão não engana – mas gosta de se esconder.


Depois da formatura do pequeno-almoço, decido então ir à enfermaria.


- É melhor ir ao hospital…respondem-me.


Estamos sem pessoal…sem especialidades como a otorrinolaringologia… está tudo destacado na frente de combate…respondem-me.


- Tente ir ao hospital civil…decerto que o atendem por lá.


Agarro no Willys e lá vou eu.


Chego as urgências.


Reina o caos.


Não param de chegar ambulâncias, num frenesim constante.


Idosos a que o “sniper” apelidado de morte atinge de raspão, ferindo quase mortalmente, mas deixando ainda com alguma vida.


Os seus familiares debruçam-se com grande angústia sobre os seus entes queridos, apanhados desprevenidos pela situação.


Já me aconteceu o mesmo. São momentos difíceis.


Não tinha uma ideia assim definida de quão pesada esta guerra era para os civis.


O inimigo, numa tentativa de lançar o terror, lança uns enormes foguetões que se chamam V-2 sobre as cidades, indiscriminadamente.


E as vitimas não param de chegar. Agora é a vez de um senhor na casa dos 50 anos.


A sua mulher acompanha-o. Não dá sinal de si. Passados alguns momentos a sua esposa reaparece num choro compulsivo. O “Sniper” apanhou-o.


Sinto uma pesada culpa por estar ali.


Eu, com uma situação “quase cómica” em relação a pessoas que se batem pela vida ali, a minha frente.


Chamam-me.


No interior do serviço de urgências reina o total caos, passam pessoas de maca, grita o pessoal médico com os auxiliares, não muito longe da imagem da enfermaria de Pearl Habour, que vi à tempos em filme.


Espero cerca de três horas e ninguém me chama. Depois do que vi, não tenho coragem de reclamar pelo facto de terem trocado o meu processo com um civil e dizerem-me que nada tinha no ouvido.


Mas algo continua lá. Que um enfermeiro empenhado, verdadeiro profissional, num outro hospital consegue retirar.


Que alivio!!


- Se isso ficasse aí, era infecção pela certa !! – diz-me.


Agradeço encarecidamente a atitude profissional e o empenho em resolver o meu “nada” comparado com o “tudo” que têm no dia a dia.


- Prefiro o voo sobre território inimigo. Com todos os perigos.


As perdas de aeronaves e tripulações têm sido gigantescas.


Em território inimigo, as tripulações capturadas, vêem-se numa realidade completamente diferente; recentemente na unidade tivemos direito a uma das “muito raras” sessões de cinema, que abordou este tema, aqui deixo aqui o “link” para partilhar convosco, dado a validade que ainda detém.


http://www.airspacemag.com/video/Resisting-Enemy-Interrogation.html


Não deixo de dedicar algum tempo a pensar na bela e simpática enfermeira do filme, malévola nos seus objectivos; trabalhando em conjunto com os “amigáveis” oficiais inimigos, determinados a tudo para alcançarem os seus objectivos.


Tal e qual como nos dias de hoje.


O meu estimado co-piloto aventura-se aos comandos de um simulador uma nova estranha aeronave experimental chamada de helicóptero.


Complicada de comandos, brilha pelo domínio que têm sobre a máquina, com o espanto do instrutor da mesma.


Quando me viro para trás, têm uma autentica plateia de mais de 20 co-pilotos que o observam atentamente.


- Nada mudou…penso…em 50 anos…muito se diz e fala “da independência e capacidade dos co-pilotos” mas na realidade, as mentalidades continuam exactamente na mesma.


Perto do fim da sua “actuação” (é o termo certo) o instrutor pede-me que lhe dê uma ajuda com o “throttle” e a sua aeronave acaba estatelada no chão, por culpa minha, perante a minha estranheza e falta de jeito para estas curiosas aeronaves.


De regresso, não deixo de comentar a sua façanha, que deveria continuar.


Mas não lhe dá muita importância, preocupa-se mais com o facto da aeronave ter passado por pouco na certificação de voo requerida todos os anos.


Temos também um membro novo na tripulação – um artilheiro de cauda – Maçarico; ainda não voou connosco em combate.

Veremos o que vai dar…por agora prefere de vez enquanto andar a pancadaria com o navegador, enquanto estamos por terra….A verdade è que já acabou na enfermaria uma vez por causa das “Brincadeiras”.


O Sr. comandante também teve que recolher à enfermaria, após uma surtida que realizou.


Quando o visitamos as suas mãos, vitimas de ferimentos, estavam inchadas e dolorosas ao ponto de não conseguir mexer os dedos.


Conseguiu  com as maõs nesse estado, regressar à base, voando sem co-piloto, com umas dores incríveis e aterrando em segurança.


É o carácter que faz a diferença quando em total surpresa, somos postos à prova com situações impossíveis de serem planeadas.


Que possamos assim contribuir para um mundo melhor.

Domingo, 22 de Janeiro de 2012

Futilidade. De um navio? Ou de uma sociedade?




















O Titan ou Futilidade.

Em 1898, um escritor de seu nome Morgan Robertson escreveu uma obra de ficção sobre um navio de nome Titan, igualmente inafundável como o Titanic.

Curiosamente na sua obra, o nº de salva vidas era bastante inferior à lotação do navio.

Igualmente o Titan colide com um Iceberg, sendo a causa do seu afundamento e provocando também um grande nº de vítimas, como no Titanic.

Em 2010, um realizador de nome Jean-Luc Gogard rodou um filme no “Costa Concordia” onde profetizava sobre o fim da Europa.

Passados 100 anos a sociedade continua igualmente “Fútil”, não evoluíndo praticamente nada ?

Procura ainda que os seus indivíduos caminhem em busca de um ideal falso, de um materialismo egocêntrico, através da sistemática exploração e subjugação dos seus semelhantes, que como todos pudemos comprovar no último seculo, só conduz à infelicidade?


Chega a hora de “abandonarmos” a futilidade, mostrar que aprendemos, enquanto humanidade, esta importante lição, e assim caminharmos para um futuro mais justo e feliz para todos.


http://en.wikipedia.org/wiki/Futility,_or_the_Wreck_of_the_Titan

http://aeiou.expresso.pt/godard-rodou-no-costa-concordia-profecia-sobre-o-fim-da-europa=f700659

A tecnologia que nada alterou.




Quase no centenário do afundamento do bem conhecido “Titanic” eis que novamente um navio é palco de um enorme drama.

Em Abril de 1912, partia para a sua viagem inaugural, um navio inafundável, como era considerado por todos, inclusive o seu comandante.

Não chegou ao seu destino. Perderam-se 1500 vidas.

Actualmente os navios de cruzeiro têm praticamente o dobro da lotação entre passageiros e tripulantes. Todos os sonares. Todas as tecnologias. Praticamente à prova de tudo.

Excepção feita à condição humana.

Que pela força do hábito, cai na rotina e facilita.

- Um pequeno problema electrico; Afirmaram agora.

Facilmente comprovável, nas imagens que nos chegam, de um gigante tombado sobre o seu dorso, tal baleia que inesperadamente deu à costa, para um infeliz destino.

Em 1912, outros actores no palco da vida, desempenharam o papel desta tripulação, informando os passageiros do Titanic, que uma pá da hélice se tinha soltado. Nada de grave.

A tragedia humana não atingiu nos dias de hoje um total tão elevado como em 1912, mas não deixa de ser uma terrível perda de vidas, totalmente desnecessária, para quem num descontraído cruzeiro procurava alguns momentos agradáveis, ou como no caso da tripulação, uma forma de sustento um pouco melhor.

Sobre a tripulação e comandante do Costa Concordia, os factos falam por si.

Há 100 anos ficaram praticamente todos no Navio.

Agora não, mas não é com as pantufas frente à televisão que se podem atirar críticas fervorosas.

É nesses momentos; Quando fazemos parte da acção.

Dentro de ti surgirá o Francesco Schettino; Mas também o comandante Edward J, Smith do Titanic.

Uma das atitudes irá prevalecer.

O navio será o teu palco, ou o prédio onde habitas, ou mesmo a empresa onde trabalhas. O cenário não interessa muito.

Quis o destino, que neste mesmo ano, e neste mesmo mês de Janeiro, esteja a ver uma casa centenária de família, em plena lisboa, datada de 1921, a sofrer um semelhante destino.

Um local muito especial para mim, onde sempre convivi em grande alegria com a minha família, encontra-se agora literalmente a afundar-se a caminho da destruição pelos interesses imobiliários que tudo podem.

Praticamente desprovida das suas fundações, pelas obras que mesmo ao lado a castigam sem descanso, a velha casa, tal navio ferido de morte, caminha para o seu inexorável destino.

Os meus familiares apressam-se a lançarem-se para um salva vidas, com alguns dos seus haveres, a que eu tento acudir com a minha ajuda, com algumas lagrimas que teimam em escorrer pelo meu rosto.

Mesmo feita em escombros um dia, as alegrias os bons momentos vividos, jamais os poderão tirar.

Essa é a única riqueza que realmente podemos ter.


Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Dinheiro


Tudo  o que é material se vende, e se compra. Com dinheiro.

Critério máximo acima de qualquer outro “padrão” numa sociedade falida.

Mas têm um preço elevado.

A evolução da raça humana tropeça nesta básica armadilha, e retorna à animalidade.

E não esquecendo, que numa sociedade caracterizada por um deserto de princípios, ninguém dá nada a ninguém.

Da mesma forma que, aquando da integração de Portugal da comunidade económica Europeia, tudo era facilidades.

Portugal iria viver do Turismo, nada mais.

Assim se destruiu sectores como a agricultura, pescas e metalomecânica.

Chegou-se a pagar para as pessoas deixarem de trabalhar.

Passados 20 anos viu-se as consequências disso.

Uma economia falida, que vive de empréstimos, num país que é governado por entidades exteriores, que com uma mão de ferro, levam ao limiar da pobreza uma nação milenar.

Encontram nuns governantes fantoches a forma de conseguirem aplicar as suas políticas.

- Qualquer que seja o resultado do escrutínio eleitoral, o teatro dos fantoches estará sempre garantido, para um povo que sofre e chora com a actuação.

Mas a escravidão pode sempre ser elevada a novos limites.

No desespero económico, tudo entregam a troco de mais capital.

Desta vez será à China, sim, a essa nação.

Onde os direitos humanos de nada valem. Onde a liberdade de expressão é uma miragem.

Onde não existem eleições, e um partido e comité central tudo podem fazer.

Em 1989, na praça Tiananmen, o povo chinês tentou pedir liberdade.

Sentindo-se ameaçado, o partido totalitário Chinês resolveu prontamente a situação através de um massacre, matando indiscriminadamente aqueles que apenas liberdade pediam.

Os regimes totalitários são pródigos em utilizar tanques de guerra contra manifestantes civis.

Já foi visto na Hungria em 1956. Na Líbia em 2010. Na Síria actualmente.

E em tantos outros locais.

Em 1949 a China até se deu ao direito de invadir o pacifico Tibete.

E desde aí, têm tentado negar o direito ao povo Tibetano de existir.

Realizando inclusive a castração física dos Tibetanos, perante a indiferença do mundo inteiro, a troco de produtos de baixo custo.

Genocídio é uma palavra que associamos ao regime Nazi.

Mas convive connosco nos dias de hoje. Infelizmente.

Vejamos o que os EUA fizeram povos Índíos no final do século XIX;  A Turquia fez o mesmo à Arménia em 1915; Em 1995, a Sérvia na Bósnia Herzegovina, como muitos de nós ainda se lembram.

O que a China faz no Tibete é o mesmo. Genocídio.

Será apenas uma questão de tempo até imporem a sua mão de ferro por cá também.

Muito mais pesada, irá comprometer as gerações futuras e uma nação inteira.

Mas o factor económico é o que mais pesa, conduzindo a um futuro de escravidão.

Já aconteceu no passado.

Resta-nos a esperança no carácter humano, que com a sua perseverança, ao longo dos tempos sempre foi capaz de vencer todas as formas de opressão, reencontrando os valores da liberdade, justiça, promovendo um mundo melhor.

Um Bom 2012.

Domingo, 30 de Outubro de 2011

Ideais que não são para todos...














A ditadura de Kadaffi , chegou ao fim na líbia.

Ignorando um mundo em mudança, nem a força dos mercenários aguentou o ditador muito tempo.

Chamou os que se rebelaram contra a sua ditadura de “ratos” mas ironia do destino, os seus últimos momentos foram passados dentro de uma tubagem de escoamento de águas, local de eleição dos roedores, onde procurava ainda a impunidade com que sempre viveu.

Miseravelmente, ainda há pouco tempo era recebido com honras de estado, por numerosos “governos do ocidente” – Os auto intitulados defensores da igualdade de direitos e da condição humana.

Mas nunca deixou de ser o mesmo criminoso.

Curiosamente o mau momento económico, conseguido graças a ambição desmesurada da ganância do capitalismo, desde sempre fomentada na sociedade de consumo, faz igualmente cair numa indiferença profunda os “governos do ocidente”.

Com as estruturas produtivas deslocalizadas para o oriente – onde os trabalhadores vivem uma realidade semelhante à da era da revolução industrial, tudo parecia estar bem.

Não existindo por essas paragens, preocupação com o bem-estar, ou uma distribuição da riqueza de acordo com os bens produzidos. – Apenas uma luta no dia-a-dia pela sobrevivência.

Daí as grandes margens de lucro – Um verdadeiro negócio da china, a que se juntam Índia, Paquistão e tantos outros.

Os “governos do ocidente” – Os já mencionados defensores da igualdade de direitos e da condição humana, fecham os olhos a que tudo o que por lá se passa.

Assim os “tão nobres ideais” caem por terra, pois o silêncio é total quando se fala de eleições livres e democráticas na china, ou na ocupação do Tibete, sem esquecer os milhões de seres humanos a trabalhar à beira da escravatura, sem quaisquer direitos.

Desprovidos da grande parte da estrutura produtiva, logo bastante enfraquecidos economicamente, os “governos do ocidente” agora pedem esmolas a troco das poucas estruturas produtivas restantes, para tentar salvar as suas sociedades.

A ruína económica espera-os em breve. Não haverá fundos capazes de cobrir valores de dívidas de juros que não param de subir.

Daí que a salvação reside na china.

Nos seus cidadãos, que a semelhança do que sucedeu na Líbia, se revoltem contra um governo totalitário exigindo melhores e mais justas condições de vida e de trabalho, à semelhança do que sucedeu no ocidente, no inicio da revolução industrial.

E o mesmo se aplica à Índia, um dia, liberta da sociedade de castas, forma de opressão sobre um imenso povo.

Assim os seus produtos irão reflectir o verdadeiro “custo de produção”.
E deixará de ser economicamente viável produzir num remoto local, quando no próprio país esses custos de produção forem idênticos.

E a economia dos “governos do ocidente” recuperará, assim como os seus ideais, de uma forma transparente, sustentada e justa.

Nunca em toda a história, nenhuma economia recuperou o seu vigor à custa de impostos e sobretaxas, sem um aumento efectivo da riqueza, através do incremento da produção.

Num mundo que pode ser melhor para todos, distribuindo a riqueza de uma forma mais justa.

E deixando para trás uma época de cinismo e de ganância, que rapidamente terá que chegar ao fim, para o bem de todos nós.